quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Como uma gata linda e saudável pode sucumbir em apenas sete dias? E onde está agora?


Luna era alegre, extremamente carinhosa, mansa com outros animais (ficava tranquila no quintal enquanto pombas e passarinhos pousavam perto dela), não tinha problema renal, diabetes, não tinha Fiv/Felv e nem nenhuma doença pré-existente que possa explicar sua dolorosa partida em apenas sete dias. 

Por isso seu drama compartilhado no meu instagram @miaubookecia comoveu milhares de pessoas que tentaram me dar força para superar a perda dela. Nos posts vistos por mais de 10 mil pessoas narrei o sofrimento que foi vê-la perdendo as forças sem comer, beber, dormir, tomada por uma pancreatite aguda que surgiu logo após tomar o antibiótico Amoxi CL que é de amoxilina e usado em grande escala pelos médicos veterinários.

Luna aparentou estar com uma infecção urinária bem no início, pois, logo na primeira tentativa de fazer xixi e só sair uma gotinha, já a levei numa clínica. O exame de sangue mostrou infecção e então receitaram esse Amoxi CL duas vezes por dia. Logo depois do segundo comprimido ela parou de comer - o que é comum acontecer porque na própria bula do remédio a anorexia é destacada como efeito colateral.

Mas junto com a anorexia apareceu uma pancreatite aguda que a levou para uma UTI. Não posso afirmar que o Amoxi provocou a pancreatite porque não tenho exames anteriores ao uso do remédio, mas encontrei pesquisas na internet atestando que a amoxilina pode sim provocar "raramente" pancreatite em gatos.


Pela velocidade dos males que surgiram em poucos dias, a impressão que dá é que a amoxilina teve um papel importante no quadro crítico no qual ela mergulhou.

De uma infecção totalmente controlável com antibiótico, ela pulou para uma provável sepse mesmo após quatro dias de uso desse remédio ou 8 comprimidos. Ou seja, ao invés de conter a infecção, ela aumentou cerca de dez vezes: dor, febre, anorexia, pancreatite com inflação nos arredores do orgão e leucócitos pulando de 19 mil (normal) para 200 mil. Tudo isso foi tratado com medicação direto nas veias dela na internação por duas noites e dois dias sem qualquer reflexo de melhora.

Sonho realista:

Então, na segunda noite em que ela ficou internada, estava dormindo e senti as patinhas dela subindo na cama e me pisando. Foi tão real que, no sonho, resolvi verificar. Ao levantar me deparei com a Luna no quarto ainda com os acessos na veia. Ela tinha saído do hospital e vindo ao meu encontro. Nós então nos esfregamos muito, por bastante tempo. Foi uma troca de carinho muito intensa até que um outro gato passou correndo pela gente. Luna correu atrás dele e saiu por uma fresta da porta. Corri atrás e quando abri a porta vi um gato no alto de um pequeno morro no quintal de casa. Achei que era a Luna e tirei uma foto para provar que ela tinha de fato estado em casa. A surpresa veio quando ampliei a foto para enxergar melhor o gato. Não era a Luna. Era a Rebecca - uma gatinha minha que morreu um ano atrás e era muito próxima da Luna. Rebecca, no meu entendimento, veio buscar a Luna.

Com esse sonho na cabeça tive a sensação forte de que devia trazer a Luna para casa. Foi quando no hospital encontrei a Luna em pior estado. Estava com acessos nos dois bracinhos e sonda na uretra. Isso sem falar do ambiente terrível cheio de outros animais latindo e gemendo. Estava numa gaiola pequena conectada a vários fios, sem poder sequer se mexer e com alimentação forçada. 

Era hora de ir pra casa.

Passamos uma noite inteira juntas na qual ela ficou sem dormir, trocando de posição na cama, visivelmente desconfortável e a boquinha travada dificultando inclusive a ingestão de água com seringa. Não reagia ao meu carinho porque o desconforto geral era mais forte que  a sensação de prazer que o afago podia dar. Fomos em mais uma veterinária que já tinha cuidado de outras gatas minhas. O quadro era irreversível porque além de tudo que ela já tinha fora de controle, as gengivas cor da neve apontavam uma anemia severa. A veterinária constatou nela os sintomas de um processo de morte em ritmo acelerado.

Nessa mesma manhã disse adeus a ela e repeti dezenas de vezes quanto a amava.

Segundo sonho:

Nesse sonho descobri que a famosa Ponte do Arco-Iris não leva para um jardim florido como a maioria dos tutores imagina. Leva, no máximo, para uma ala de tratamento, necessária para os bichinhos que partem em sofrimento ou choque se recuperem. Um processo igual ao que acontece com a gente.

Luna estava escondida num buraco na parede de uma espécie de porão, assustada. Duas jovens estavam cuidando dela. Disseram que ela tinha comido apenas um pouquinho até aquele momento. Então chamei por ela muitas vezes. Luna não queria sair do esconderijo, mas acabou cedendo aos meus apelos e então pude acariciá-la  e ela respondeu alinhando a cabecinha sob meu braço como sempre fazia. Uma das garotas trouxe um pratinho com a ração que ela adorava. Ela então se dirigiu ao prato e começou a comer. Isso me deu um grande alívio e acordei.


Terceiro sonho:

Uma semana se passou e eu continuava sentindo a Luna por toda a casa porque éramos unha e carne. E a sensação dela não estar bem, sem mim e com medo estava me corroendo. Então tive o terceiro sonho com um local semelhante a uma estação de trem. Vi um gatinho abatido no chão e uma esteira móvel (tipo aquelas de bagagem de avião nos aeroportos) com mais gatos incluindo a Luna. Ofereci a ração dela e ela apenas deu uma lambidinha. Um segurança ali perto da gente me disse que ele já tinha dado biscoito de polvilho pra ela. Luna não me deu muita atenção. Ficou sentadinha na esteira.

Então um trem dourado de ferro se aproximou. Parecia um trem de desenho animado, brilhante, com aspecto antigo. Então uma moça pegou a Luna no colo para colocá-la dentro do trem. Luna me olhou bem nos olhos antes de ir embora. Talvez um adeus? Assim que o trem partiu eu acordei.


As lições que ficam

Descobrir que a Ponte do Arco-Iris não leva imediatamente a um lugar feliz e sem dor foi minha maior descoberta. Parece decepcionante, mas na verdade é bom que os bichinhos se tratem de suas doenças, dores físicas e emocionais antes de "viajarem" para um lugar melhor como pareceu que aconteceu com a Luna no meu terceiro sonho com ela.

A comunicação telepática ou por meio de sonhos se mostrou absolutamente real. De fato, a linha do afeto pode conectar duas criaturas que se amam nas situações mais adversas. Atender ao pedido da Luna para voltar para casa antes de morrer me dá certo alívio na culpa de não conseguir salvá-la.

Por último, fica um alerta: assim como acontece com os humanos que podem ter sérias reações alérgicas ou efeitos colaterais mediante medicamentos e procedimentos médicos, com os animais ocorre igual. Então antes de utilizar um antibiótico forte via oral, argumente com o veterinário se há outra alternativa. Antibiótico injetável resolve? Antibiótico via oral necessita de protetor hepático e remédios que abram o apetite? Cheque isso.

Vale lembrar que Luna tomou Amoxi sem qualquer indicação de protetor hepático, remédios para apetite ou B12 por duas veterinárias de clínicas diferentes. Ela podia ter tido pancreatite mesmo assim? Talvez, mas não custa se cercar de cuidados na conversa com o veterinário. Talvez eu tenha errado na falta dessa abordagem. às vezes, tentando salvar, a gente tropeça em algum passo.


O vazio que fica

Hoje faz duas semanas que Luna morreu. Parece que vou vê-la em cada cômodo que entro. Ela me acompanhava em cada movimento. Até no meu café da manhã ela ficava sentadinha na cadeira do lado da minha. E era uma gata curativa, que me protegeu de muitas dores. Explico:

Sabemos que o ronronar dos gatos, por alcançar escalas vibracionais de até 150 hertz, funciona de forma similar a aparelhos de fisioterapia. O ronronar é uma ferramenta de autocura dos gatos que gentilmente eles nos doam.

O ronronar expressa emoções como alegria, satisfação, medo e também estados de dor e desconforto. E essa vibração pode ajudar na cura de lesões em músculos, ligamentos e tendões tanto neles quanto em nós humanos. Tive um problema na planta do pé esquerdo cuja dor aguda não passou nem depois de várias caixas de antiinflamatório. Foi só quando a Luna começou a deitar sobre meu pé doente e abraçá-lo que a dor sumiu. E teve outras ocasiões em que o corpinho dela colado no meu me aliviou de dores e tensões.

Linda, saudável, protetiva, carinhosa, alegre... claro que o vazio fica, mas eu sei que estão cuidando dela em algum lugar nesse universo tão vasto e que de lá ela pode sentir o amor infinito que sinto por ela.

Fátima ChuEcco - jornalista ambientalista, especializada em pets e amante de gatos







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