sexta-feira, 17 de julho de 2026

Zoosadismo felino e entrevista com grupo ativista internacional Feline Guardians


Em nenhuma outra época de nossa história tivemos tantos casos de tortura a gatos no mundo (incluindo no Brasil), especialmente filhotes. E pior ainda: além de adolescentes torturadores, tem surgido também casos de tortura de gatos até por crianças.  O cenário parece pior que o período conhecido como "Caça às Bruxas" quando os gatos, associados as mulheres consideradas bruxas, foram como elas perseguidos, enforcados ou queimados.

Daquela época de glamour do antigo Egito, quando muitos gatos eram venerados e vistos como deuses encarnados, não se tem mais vestígios. Depois de um notável apogeu com os gatos ganhando lares nas grandes cidades e em alguns países tornando-se mais desejados que os cachorros (como nos EUA e Rússia por exemplo), e adorados como no Japão, temos agora um retrocesso com o pesadelo do zoosadismo felino. 

Mercado sombrio

Vale ressaltar que zoosadismo não é apenas o ato de torturar e matar animais por prazer, mas também para conseguir notoriedade em um determinado grupo ou obter lucro. E o mais grave é que o zoosadismo virou um sombrio e rentável mercado com casos tenebrosos pipocando por toda parte: pessoas machucando e matando animais para vender os vídeos. 

Combater esse crime exige um trabalho complexo. O foco não pode estar apenas no assassino direto, mas também em quem lhe fornece os gatos, quem lhe compra os vídeos e as plataformas que oferecem ambiente virtual para os crimes serem postados ou cometidos ao vivo.

Uma terrível prática que tem crescido nos últimos anos

Núcleo de Observação e Análise Digital (NOAD) - orgão de inteligência da Secretaria de Segurança Pública de SP - se infiltra nas plataformas para monitorar os crimes de maus-tratos a animais. Os dados são assustadores:

- Cerca de 10 a 15 gatinhos são torturados até a morte a cada madrugada

- Os métodos visam prolongar o sofrimento para que o vídeo ao vivo fique o maior tempo possível sendo degustado por uma plateia insana com cerca de 800 a mil pessoas

- Foram registrados 385 casos de zoosadismo e maus-tratos a animais em plataformas digitais apenas no primeiro trimestre de 2026

- Porcentagem-chave: 90% desse tipo de crime ocorre na plataforma Discord, sendo 90% dos autores adolescentes ou jovens em busca de ganhar pontos dentro da hierarquia de grupos de ódio e ainda 90% das vítimas são gatinhos filhotes

- Esses monitoramentos resultaram no resgate de pelo menos mil animais no estado de São Paulo

Segundo apurações do NOAD, os gatinhos são espancados, mutilados, queimados, perfurados e enforcados. E há pessoas sugerindo atrocidades no decorrer dos vídeos como cortar uma patinha ou furar um olhinho do bichinho que, inocentemente, num primeiro momento busca aproximação do seu agressor em busca de acolhimento e carinho.

Como combater o zoosadismo?

Alguns países adotaram medidas. A Lei de Segurança Online do Reino Unido (2024) e a Lei de Serviços Digitais da UE exigem que as plataformas removam conteúdos relacionados a crueldade contra animais. As multas são pesadas.

Progresso no Brasil:

A Justiça do Ceará determinou recentemente que plataformas como Discord, Telegram, TikTok, Google, Twitch, Reddit e 4Chan removam conteúdos que promovam, incentivem, transmitam ou divulguem maus-tratos ou morte de animais. Além da remoção, as plataformas precisam apresentar plano de ação de filtragem desses conteúdos. A multa é de mil reais por dia em caso de descumprimento das determinações. A iniciativa partiu de entidades de proteção animal que apontaram  a divulgação de vídeos de crueldade.


A teoria do link se aplica ao zoosadismo?

Já se sabe por meio de profundos estudos e pesquisas que quem maltrata animais tende a ser violento com outras pessoas, especialmente com as mais frágeis, com poucas chances de se defender. A teoria do link, como o próprio nome diz, "linca" o torturador ou matador de animais a sujeitos que são violentos também com mulheres e crianças. 

Também assinala que crianças e adolescentes que torturam animais tendem a se tornar agressivos com outras pessoas e até serial killers na vida adulta. Aliás, muitos dos mais famosos matadores em série iniciaram sua trajetória de sangue matando animais quando eram mais jovens. Isso é fato.

Portanto, os adolescentes que entram nessa onda de desafios por prestígio ou torturam por dinheiro,  tendem a se tornar adultos violentos, acostumados a machucar os mais frágeis. Isso porque eles aprendem a banalizar o sofrimento alheio e até se divertem com o mesmo. É um exercício de crueldade que quanto mais se pratica, mais se quer praticar.

Entrevista com o grupo internacional Feline Guardians

Um dos grupos mais atuantes contra o zoosadismo felino é o Feline Guardians. Foi  fundado em 2023 por ativistas chineses em resposta ao surgimento de redes online organizadas dedicadas à tortura de gatos. O trabalho se expandiu da China para vários países onde tem ocorrido o zoosadismo nas redes sociais. Os membros evitam se identificar para poderem operar com sucesso, mas aceitaram responder algumas questões:

Houve algum incidente específico envolvendo gatos que motivou a criação do grupo?

Reparamos que grupos de tortura não eram formados por indivíduos isolados, mas por comunidades que filmavam, compartilhavam e incentivavam atos de extrema crueldade, aproveitando-se da falta de legislação específica sobre crueldade contra animais na China.

Vários casos trouxeram à tona a dimensão da crise. Um dos mais significativos foi o de "Cowcat", uma gata preta e branca que suportou cerca de 48 horas de tortura prolongada e metódica antes de ser morta. À medida que os detalhes de seu sofrimento surgiam, sua história comoveu profundamente muitas pessoas e tornou-se um símbolo da crueldade inimaginável de que essas redes eram capazes.

Outro vídeo amplamente divulgado, mostrando um gatinho sendo morto em um liquidificador, expôs ainda mais a gravidade dos maus-tratos e demonstrou como esse material estava sendo criado e distribuído online.

Ao investigarem mais a fundo, os ativistas perceberam que os membros dessas redes organizadas de tortura de gatos incentivavam uns aos outros, encomendavam abusos, recompensavam os autores e compartilhavam vídeos para a gratificação dos envolvidos. Percebendo a dimensão do problema e a falta de uma conscientização internacional coordenada, alguns ativistas chineses uniram-se para fundar a Feline Guardians.

O que começou como uma iniciativa de base para conscientizar o público e expor essas redes transformou-se em uma organização beneficente internacional registrada. Hoje, a Feline Guardians trabalha para combater a disseminação online de material que retrata crueldade contra felinos, apoiar esforços para identificar infratores, educar o público e defender proteções mais rigorosas para os gatos, tanto na China quanto internacionalmente.


O Brasil também possui um mercado significativo de crueldade animal envolvendo gatos. Alguns autores desses atos foram identificados e presos. O que chama a atenção é que, no Brasil, muitos desses torturadores são adolescentes. Isso é comum em outros países?

Sim. Infelizmente, jovens estão presentes em comunidades organizadas de tortura de gatos e casos envolvendo menores de idade foram documentados em diversos países. Embora o perfil de idade varie entre grupos e localidades, é muito comum encontrar adolescentes envolvidos.

Por exemplo, grupos de abuso organizado que atuam na China incluíam participantes adolescentes; já na Turquia, o grupo conhecido como C31K era composto majoritariamente por adolescentes e jovens do sexo masculino, tendo sido associado a violências que iam além dos gatos — especialmente à misoginia extrema. No Reino Unido, o assassinato de dois gatinhos por adolescentes em Londres — que chegaram a ser presos — foi um dos casos destacados na cobertura da BBC sobre a tortura organizada de gatos, na qual a Feline Guardians colaborou. Existem muitos outros exemplos de adolescentes ao redor do mundo cometendo atos de violência contra gatos e, em alguns casos, essa violência evoluindo para agressões contra seres humanos.

Esses casos demonstram que comunidades online de crueldade organizada também atraem e influenciam adolescentes. Essa é uma das razões pelas quais a Feline Guardians acredita que a educação é fundamental. Além de leis mais rigorosas e uma atuação policial eficaz, ensinar às crianças, desde cedo, que os gatos são seres sencientes — capazes de sentir medo, dor e afeto como nós — é uma parte importante da prevenção de futuros atos de violência.

Em quais países a Feline Guardians atua?

Embora estejamos registrados como uma organização beneficente nos Estados Unidos, nosso trabalho é global; colaboramos com ativistas, autoridades policiais, organizações de bem-estar animal e veículos de comunicação de todo o mundo para aumentar a conscientização, apoiar investigações e promover proteções mais eficazes para os gatos — com ênfase especial nas redes organizadas de tortura de gatos originárias da China.

Nosso trabalho baseia-se em conscientizar sobre as redes de abuso organizado, informar o público a respeito da dimensão do problema e de sua propagação internacional, apoiar debates sobre políticas públicas e defender leis mais rigorosas para os gatos.

Também dialogamos com formuladores de políticas e representantes governamentais sobre a necessidade de mudanças legislativas. A Feline Guardians é politicamente neutra e não promove nem apoia nenhum partido político. Em vez disso, trabalhamos com pessoas de todo o campo político que compartilham o objetivo de melhorar a proteção aos gatos.

Para o futuro, estamos desenvolvendo iniciativas adicionais que incluem a criação de abrigos da Feline Guardians para oferecer cuidados e reabilitação a gatos vítimas de abuso e tortura, bem como a expansão de programas educacionais. Acreditamos que a mudança a longo prazo começa pela educação e buscamos trabalhar com escolas e comunidades. Ao promover a compaixão e o cuidado responsável desde cedo, esperamos fomentar uma mudança cultural duradoura.


A Feline Guardians investiga indivíduos suspeitos de crueldade contra gatos? 

Não. A Feline Guardians não investiga indivíduos suspeitos de crueldade contra gatos. Quando apropriado, apoiamos as autoridades policiais compartilhando informações relevantes e colaborando com investigações oficiais. Também colaboramos com organizações externas de confiança e parceiros independentes especializados em trabalhos de investigação. Caso sejam identificadas informações confiáveis ​​relacionadas à tortura organizada de gatos ou a outras infrações graves, elas serão encaminhadas às autoridades competentes ou a organizações especializadas mais aptas a realizar a investigação.

As investigações devem ser conduzidas por profissionais capacitados. Tentativas de pessoas não qualificadas de identificar ou confrontar suspeitos podem, inadvertidamente, comprometer provas, alertar infratores, colocar indivíduos em risco ou, de outra forma, prejudicar as investigações policiais e quaisquer processos judiciais subsequentes.


Acesse Instagram @feline_guardians e www.felineguardians.org

Para saber mais:

Da onde vem o termo zoosadismo?

Primeiro é preciso entender o termo sadismo, ou seja, a obtenção de prazer ao causar dor física, sofrimento emocional ou humilhação a outras pessoas. Deriva do aristocrata, escritor e filósofo francês Marquês de Sade que durante o século XVIII chocou a sociedade com uma vida libertina e obras literárias como Os 120 Dias de Sodoma.

O termo zoosadismo (ou zoossadismo) foi apresentado pelo psiquiatra e sexólogo alemão Ernest Bornemann que o descreve como um distúrbio psicológico em que o indivíduo sente excitação, diversão ou visa lucro ao torturar animais.

É crime praticar sadismo e zoosadismo?

Atos de sadismo só podem ser tratados como crime se não houver consentimento da outra pessoa envolvida na prática. Existem pessoas que gostam de ser machucadas e humilhadas especialmente durante o ato sexual, então se submetem a sádicos por livre e espontânea vontade. Já o zoosadismo felino é crime sim! Mesmo que não tenhamos uma Lei criminal específica para isso, a prática de zoosadismo felino entra na Lei Sansão que pude crimes de maus-tratos a cães e gatos.

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Fátima ChuEcco - jornalista ambiental e atuante na causa animal

                            Fotos: Pixabay Free (postagem gratuita)


 

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