domingo, 28 de junho de 2026

Conheça o mercado de zoosadismo felino e ajude. Matéria sem cenas fortes

Em nenhuma outra época de nossa história tivemos tantos casos de tortura a gatos no Brasil. Se somarmos a outros casos do mundo, especialmente na China, talvez o número de vítimas ultrapasse a idade média, no período da Inquisição, quando os gatos, associados as bruxas, foram perseguidos, queimados e torturados.

Daquela época de glamour do antigo Egito, quando muitos gatos eram venerados e vistos como deuses encarnados, não se tem mais vestígios. Além da perseguição brutal a milhares de gatos semi-selvagens na Austrália e Nova Zelândia (onde até crianças caçam e matam os felinos), temos agora o pesadelo do zoosadismo.

Mas por que essa atrocidade contra os gatos nas redes sociais, especialmente filhotes, tem crescido? Talvez porque toda tecnologia tem seu lado bom e seu lado ruim.

Do lado ruim surgiu espaço para esse sombrio mercado clandestino. 

Zoosadismo é o ato de torturar e matar animais por prazer, notoriedade ou lucro.

Sádicos e zoosádicos não são doentes mentais. Eles têm plena consciência de seus atos. Inclusive, atos de sadismo só podem ser tratados como crimes se não houver consentimento dessa prática pela outra pessoa envolvida. 

Já o zoosadismo é crime sim! Mesmo que não tenhamos uma Lei criminal específica, não há consentimento do animal para submissão à tortura.

ATENÇÃO:

Diferente do que muitos pensam, os assassinos e torturadores atuais de gatinhos, tanto dentro quanto fora do Brasil, podem não ser zoosádicos, embora sejam igualmente criminosos. A maioria deles não está fazendo isso com os gatos por prazer, mas sim por dinheiro ou notoriedade em grupos específicos da "dark web" ou "deep web". 

Mas embora uns matem ou torturem por prazer e outros apenas por dinheiro ou engajamento, há uma característica comum nos dois assassinos: a COVARDIA. Nenhum deles ataca seres  que podem se defender. Não é preciso coragem nem esforço para matar um gato filhote ou adulto. 

Assim, com presas fáceis, o zoosadismo se transformou num mercado lucrativo com vários personagens e é necessário reconhecer e deter cada um deles para brecar essa crueldade:

Personagem 1: quem fornece os gatinhos (um falso protetor ou adotante por exemplo)

Personagem 2: o zoosádico que compra e consome esses vídeos  em busca de prazer ou excitação sexual

Personagem 3: produtor dos vídeos que apenas quer receber dinheiro ou, no caso de alguns adolescentes, reconhecimento (esse é o caso de jovens que ganham pontos em grupos que lançam desafios envolvendo tortura animal)

Personagem 4: donos das plataforma onde se libera ambiente virtual para os crimes ocorrerem ao vivo ou serem postados

Personagem 5: no caso específico de zoosadismo cometido por adolescentes, os pais ou responsáveis também tem parte da culpa se tiverem sido omissos aos atos dos filhos

Prender os assassinos diretos, mas não deter os demais criminosos da mesma rede criminosa não adianta nada.

Os dados confirmam a existência de um forte mercado que se desenvolveu longe dos holofotes. Vejam:

Do final de 2024 para cá, mais de 580 pessoas foram presas por crimes na Internet e, segundo dados da Polícia Civil, 90% confessou ter machucado ou matado animais. A Polícia tem se infiltrado em redes e monitorado até 15 casos de tortura animal a cada madrugada. São pelo menos 40 gatos espancados, mutilados, queimados, perfurados e enforcados por mês.

O Núcleo de Observação e Análise Digital tem um dado assustador sobre adolescentes. Quem pratica crueldade contra animais ganha pontos dentro da hierarquia de grupos de ódio do Discord. E, por sua vez, o Discord alega que nada vê ou sabe. 

O grupo de ativistas Feline Guardians observou que a matança de gatos em redes sociais aumentou 500%. É muita coisa. Quase inimaginável!

A teoria do link se aplica no zoosadismo?

Já se sabe por meio de profundos estudos e pesquisas que quem maltrata animais tende a ser violento com outras pessoas, especialmente com as mais frágeis. A  teoria do link vê num matador de animais grande possibilidade dele ser violento com a mulher e filhos, por exemplo. E há muitos casos que comprovam isso.

Também assinala que crianças e adolescentes que torturam animais tendem a se tornar agressivos com outras pessoas e até serial killers. Aliás, muitos dos mais famosos matadores em série iniciaram sua trajetória de sangue matando animais quando eram mais jovens. Isso é fato.

Mas no mercado do zoosadismo, como explicado acima, é importante observar que há vários personagens visando apenas lucro e não prazer em matar. São assassinos em busca de dinheiro e em casos de desafios entre adolescentes, busca de prestígio. 

É o zoosádico que se diverte com sofrimento de criaturas indefesas e ingênuas, como os gatinhos. Mas como não é um doente mental tem que ser julgado como um criminoso comum, conforme os demais personagens desse mercado. 

Lembrem que o sadismo é crime quando não há consentimento da outra parte envolvida nesta prática. Zoosadismo ainda não está na lista de crimes no Brasil, mas seguindo a mesma lógica, é também crime já que não há consentimento dos animais.

E os adolescentes?

Quanto aos adolescentes que entram nessa onda de desafios por prestígio ou torturam por dinheiro, eles tendem sim a se tornar adultos violentos, acostumados a machucar os mais frágeis. Isso porque eles aprendem a banalizar o sofrimento alheio e até a se divertir com o mesmo. É um exercício de crueldade. Quanto mais se pratica, quanto mais se quer praticar.

Os casos mais notórios e a primeira assassina presa no Brasil

Entre os casos mais chocantes da atualidade estão o da gatinha Charlotte, espancada, queimada viva e mutilada por Cauê Bellini em Garça, interior de SP. Em Fortaleza, Ceará, foi preso Kauã Costa da Cunha, de apenas 19 anos, que confessou matar mais de 100 animais, a maioria gatos. O psicólogo Pablo Stuart Fernandes foi preso no DF pelo assassinato e tortura de 17 gatos, todos tigrados. E esses são apenas alguns casos.

Mas se voltarmos um pouco no tempo vamos nos deparar com o caso da Dalva Lina da Silva que ficou conhecida em 2012 como a "serial killer de animais". Foi a primeira assassina de animais condenada a 16 anos e presa no Brasil em 2018 depois de um longo processo. 

Dalva foi descoberta ao descartar em sacos de lixo 37 animais mortos - 33 eram gatos. Todos tinham perfurações e hematomas. Dalva se passava por protetora de animais e calcula-se que ela agiu assim durante muitos anos, com um número incontável de animais passando pelas mãos dela. Hoje, passada metade de sua pena, não se tem notícias dela.

O que os amantes de gatos e de animais podem fazer?

Denunciar é o melhor caminho aproveitando que os casos de matança de gatinhos têm estado na mídia motivando ações policiais mais duras. Mas tem outras ações:

1) Observe se seu vizinho, parente ou amigo tem adotado animais e rapidamente se livra deles alegando que fugiram, morreram ou foram levados para algum sítio distante. A Dalva, citada acima, costumava dizer que os animais iam para um sítio

2) Se você resgata e doa gatos, especialmente filhotes, jamais doe para adolescentes e, mesmo no caso de adultos, exija comprovante de residência, RG, zap, fotos e vídeos do animal no novo lar e permissão para visitas esporádicas pós-adoção

3) Fique atento ao comportamento de seus filhos caso demonstrem agressividade com animais, gargalhadas ao ver animais machucados ou mortos, conversas incitando violência contra animais com colegas dele, permanência no celular ou computador de madrugada, entre outros comportamentos que merecem atenção

4) Se por acaso algum vídeo de violência contra animais aparecer na sua rede social, denuncie imediatamente nos canais específicos para isso

5) Chame a polícia se observar alguém capturando animais em colônias de gatos. Pode ser uma captura para castração ou tratamento veterinário, mas também pode ser alguém pegando os gatos para maldades nas redes sociais. Procure saber o que se passa

6) Compartilhar essa matéria para que mais pessoas, protetores, autoridades e mídia conheçam todos os personagens do mercado de zoosadismo e foquem ações no combate a todos 

7) Há grupos lutando pelos gatinhos aqui e no Exterior. Junte-se a eles:

Instagram @guerreiros.felinos 

Instagram @feline_guardians e www.felineguardians.org

8) Especialmente os gatinhos são muito ingênuos. Perdidos nas ruas buscam ajuda de estranhos que podem lhes fazer muito mal. Observe, investigue, denuncie e salve.


Texto: Fátima ChuEcco, jornalista ambientalista e da causa animal, especializada em matérias de pets, escritora, gatóloga e consultora sobre gatos perdidos

Fotos: Pixabay Free (uso livre)




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